Monteiro Lobato, enfurecido com a preferência dada ao escultor italiano Ettore Ximenes sobre o brasileiro Victor Brecheret, num concurso para a criação de monumento, dispara na Folha da Noite, São Paulo, de 16/04/1921:"Brecheret é um escultor que apesar de moço já tem na vida uma série de asneiras colossais. Asneira básica, fundamental, mãe de todas as outras: nascer no Brasil. O Brasil não é terra onde um artista nasça. Deve nascer aqui quem inda, no ovo, já sente comichões condais no cocix, e nas unhas esse prurido ratoneiro que os espertíssimos Ximenes [referindo-se a Ettore Ximenes, escultor italiano radicado no Brasil] maravilhosamente compreendem e exploram. Segunda asneira: voltar ao Brasil convencido de que, pelo simples prestígio do seu talento, todas as portas se abririam. A dura realidade fez-lhe ver o contrário: as portas só se abrem com gazuas e gorjetas. O talento único que por cá tem cotação é o de negocistas sem escrúpulos, que subornam por meios diretos e indiretos, verbi grafia, o grilo Ximenes. Terceira asneira: acreditar na seriedade de concursos abertos no Brasil. Em matéria de arte procede-se no Brasil da mesma forma que em matéria de política, e tudo depende da cavação e da gorjeta, motivo pelo qual a vitória, vira e mexe, cai sempre nas unhas dos comendadores. Três asneiras deste naipe já constituem um acervo de vulto, suficiente para destruir a vida de um artista. Pois o nosso escultor, não contente com a volumosa trindade, ainda cometeu outras menores, como, por exemplo, a de não expor sua Eva logo ao chegar a São Paulo, fazendo-o agora que se retira de novo para o Velho Mundo. Porque essa magnífica escultura devia até precedê-lo aqui, como a credencial indiscutida e indiscutível do seu grande valor como artista do mármore. Viria dar-lhe, na opinião pública, um fortíssimo pedestal ao seu nome e impô-lo de maneira irrevogável. [...] Pois bem: se a Eva de Brecheret transfunde-nos tal estado de alma, não é preciso dizer mais. Isso sangra-o. E isso cobre de vergonha a nossa petulante Cartago, a este São Paulo que repudia de seu seio um artista destes, exila-o, esfameia-o para, em seguida, meter no bolso dum grileiro de gênio centenas de réis em troca de um presepe de pedra e bronze, cheios de leões, panteras, bugres, cavalos de Tróia, girafas, jacarés, etc., monumento falsíssimo uma vez que esqueceu os camelos pagantes e como coroamento de tudo, na cúspide, o pé de cabra onipotente, onipresente, oniciente, onicavante. Brecheret está intimado a fechar a série das suas formidáveis asneiras. Pelo amor de Deus não cometa a quinta: que seria crer na regeneração disto e regressar mais tarde com sonhos na cabeça em vez de cartas de recomendação no bolso e ardor estético n'alma, em vez dos dez mandamentos da Arte de Cavar bem decoradinhos. É preciso não esquecer nunca que, apesar da casaca de importação, o aimoré que comia gente inda vive e viça sob mil disfarces e hoje, mais faminto do que nunca, se fez aramofago...".