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Julio Louzada - Artes Plásticas Brasil
Por trás das telas, a briga pelo mercado


“Em entrevista ao Globo, o poeta e crítico maranhense Ferreira Gullar empunhou seu enferrujado bacamarte giratório e disparou contra a turma do Instituto Nacional de Artes Plásticas (INAP) e do Salão Nacional. Entre outras coisas, lamentava o critério de seleção do próximo Salão – por ele considerado elitista. O imbróglio causou exasperações entre os neoconcretos, parte dos concretos e outras estruturas metálidas da construção civil. As discussões foram se acirrando, envolvendo manipulações políticas foram levantadas, o fuá terminou respingando em Iole de Freitas e ela balança na direção do INAP.
Antes disso, porém, a Folha de São Paulo também entrou na polêmica levantada pelo Globo. E a crítica paulista – hum... – saiu de bodoques em punho sobre Ferreira Gullar. Na seção de cartas deste jornal, ontem, o artista plástico Hilton Berrêdo investia contra a reportagem do Globo, afirmando que não foram ouvidos os dois lados da questão. Ele é um artista quase correto, mas não um bom leitor. Berrêdo gostaria que o jornalismo protegesse somente seus amigos – ou seja, não divulgasse fatos contrários aos interesses de sua turma. Ora Iole de Freitas foi muito bem ouvida. Ou Berrêdo gostaria que fosse computada a opinião do motorista da Funarte, o segurança, toda aquela população da Funarte?
É claro que Ferreira Gullar se antecipou aos fatos. Mas a turma do INAP precisa entender que o Brasil não pode ser – tampouco o é – neoconcreto do Oiapoque ao Chuí. É necessário se entender que as Artes Plásticas integram um mercado – e o mercado é um reflexo direto da sociedade. Observe-se que Ferreira Gullar é um dos pilares da dissidência concreta que originou o neoconcretismo. Sua Bronca não sugere que ele esteja cuspindo no prato onde almoçou e jantou nessas três últimas décadas. O pronunciamento de Gullar. E as reações contrárias, mostram um abalo sísmico, um verdadeiro furacão Hugão, dentro dos construtivistas. Quem critica e quem revida, estranho, formam o mesmo corpo. Ocorre que há tempos existe um verdadeiro monopólio dessa tendência – ramificações que se espalham por algumas galerias de arte paulistas e cariocas e quase dominam a crítica brasileira – hum... – de arte. Basta se folhear os grandes jornais e se perceber a cupinchada. Qualquer crítico estrangeiro que aporta no País nota uma discrepância entre o que é noticiado e o que existe de fato no mercado de Artes Plásticas.
Enquanto curadores internacionais exaltam a qualidade da arte brasileira – e arte brasileira não é apenas de cunho construtivista – e programam mostras no exterior, envolvendo várias tendências, aqui quase toda a crítica frita o peixinho construtivista. Nada contra nomes como Amílcar de Castro, Antônio Dias ou José Resende. Felizmente, não existem somente esses talentos no Brasil. Fosse assim, onde a turma iria encaixar artistas como Luiz Áquila e Iberê Camargo? Parece música do Gonzaguinha, sempre feita com um único modo, lembrando os cartões de Loteria Esportiva. Não temos apenas 13 pontos na arte brasileira.
O que não se assumiu até agora é que essa briga toda esconde uma escaramuça. Leia-se: briga pelo mercado. Sob a tarja de discussão estética, a caixa registradora acumula cifrões em dólares. Nada contra. É importante que exista um mercado forte, que o artista pague seu próprio prato de comida e que tenha possibilidade de renovar seu guarda-roupa a cada estação. Sem o mercado, os artistas estariam em outras profissões, como mecânicos, faroleiros.
Agora, não se pode utilizar o dinheiro público – leia-se Funarte – para se privilegiar apenas uma tendência artística. Isto chama-se aparelhismo de esquerda. Afinal, que paga imposto, presumo, não se interessa somente pelos construtivistas. O mercado é um espelho do que afirmo. Já pensou ter em casa só obras de Iole de Freitas? Seria o mesmo que dormir e acordar conversando com Gerald Thomas” (Miguel de Almeida, crítico de arte, Rio de Janeiro, em jornal e data não registrado).

 
   
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