A tristeza toma conta de Iberê Camargo depois do episódio de 1980, em que ele atirou em um homem que, aparentemente, mexera com sua assistente numa rua do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. O crime foi considerado pela justiça como de legítima defesa, mas Iberê, abatido, decide retornar a Porto Alegre, o que faz em 1982, para reiniciar sua vida. Mais tarde, registraria ainda amargurado: “[...] Exposto à flagelação por certos órgãos de imprensa, suportei, dia após dia, a insídia, a chacota, a injúria. Manipulava-se a notícia, distorcia-se o fato para estigmatizar-me perante a opinião pública. Transformaram-me no símbolo da violência, logo a mim que a sofrera! Maria e eu, como dois náufragos à mercê de um mar em fúria, vivemos a consumação da obra. Ela pensou minhas feridas com suas lágrimas. Os amigos foram mais amigos. Muitos assumiram publicamente a minha defesa. Mas houve os que se afastaram. Estes, esqueci-lhes o nome. Verberou-se na imprensa contra a violência. Não, obviamente, a violência de certa imprensa contra o indivíduo. Refiro-me à imprensa que se supõe infensa à crítica, inquestionável. Isso porque quase nunca é incomodada, pois a Justiça só a molesta quando ela morde os fundilhos do poder. Fala-se que fui vítima de minha amizade com Cordeiro de Farias, homem de 1964. Não sei. Tenho o culto da amizade e da gratidão. Jamais pedi atestado de ideologia aos meus amigos. O episódio da APLUB foi mais uma agressão que sofri. Durante uma recepção na nova sede, meus quadros foram retirados da pinacoteca por seu presidente, um m...., que me considerou indigno de permanecer no acervo, após a tragédia. Em sua paranóia, antecipou-se à Justiça. Inqualificável. Por ironia, os quadros do acervo eu doara a pessoas que, em dificuldades financeiras, os venderam à APLUB. Como se vê, financiei meu auto-de-fé”.